terça-feira, 3 de agosto de 2010

CASAMENTO ABERTO


Andou circulando pela internet um texto creditado a Danielle Mitterrand, viúva do ex-presidente francês François Mitterrand. Pelo teor, acredito que seja mesmo de sua autoria. Quando permitiu que a amante e a filha que ele teve fora do casamento comparecessem aos funerais, Danielle comprou uma briga com a ala mais conservadora da sociedade francesa. Agora está se defendendo com uma reflexão que serve para todos

É sabido que a instituição casamento vem se descredibilizando com o passar do tempo. Hoje, uma relação que dura vinte anos já é candidata a entrar para o Guinness. Li outro dia uma pesquisa sobre os casais mais "divorciáveis" da atualidade. A tal Paris Hilton era a mais cotada para se separar no primeiro ano de matrimônio - erraram: nem chegou a haver casamento. E fora do mundo das celebridades não é muito diferente. Os pombinhos estão no altar, e os amigos, na igreja, já estão fazendo suas apostas para a duração do enlace. Todo mundo quer casar, adora a idéia, mas poucos ainda acreditam no felizes para sempre, e não porque sejam cínicos, mas porque conhecem bem o contrato que estão assinando: com exigência de exclusividade vitalícia, ou seja, ninguém entra, ninguém sai. Difícil achar que isso possa dar certo nos dias atuais.

O casamento vai acabar? Nunca, mas vai continuar a fazer muita gente sofrer se não entrarem cláusulas novas nesse contrato e se as cabeças não se arejarem. Danielle Mitterrand diz o seguinte: "Achar que somos feitos para um único e fiel amor é hipocrisia, conformismo. É preciso admitir docemente que um ser humano é capaz de amar apaixonadamente alguém e depois, com o passar dos anos, amar de forma diferente." E termina citando sua conterrânea, Simone de Beauvoir: "Temos amores necessários e amores contingentes ao longo da vida".

Estamos falando de casamento aberto, sim, mas não desse casamento escancarado e vulgar, em que todos se expõem, se machucam e acabam ainda mais frustrados. Casamento aberto é outra coisa, e pode inclusive ser monogâmico e muito feliz. A abertura é mental, não precisa ser sexual. É entender que com possessão não se chegará muito longe. É amar o outro nas suas fragilidades e incertezas. É aceitar que uma união é para trazer alegria e cumplicidade, e não sufocamento e repressão. É ter noção de que a cada idade estamos um pouquinho transformados, com anseios e expectativas bem diferentes dos que tínhamos quando casamos, e quem nos ama de verdade vai procurar entender isso, e não lutar contra. Sendo aberto nesse sentido, o casal construirá uma relação que seja plena e feliz para eles mesmos, e não para a torcida. E o que eles sofrerem, aceitarem, negociarem ou rejeitarem terá como único intento o crescimento de ambos como seres individuais que são.

Enquanto não renovarmos nossa idéia de romantismo, continuaremos a bagunçar aquilo que foi feito apenas para dar prazer: duas pessoas vivendo juntas. Eu não conheço nada mais difícil, mas também nada mais bonito. E a beleza nunca está nas mesquinharias e infantilidades. A beleza está sempre um degrau acima.

(Martha Medeiros)


segunda-feira, 5 de julho de 2010

Minha alma tem andado inquieta ...
Uma sensação que ainda não consegui definir muito bem...
Sinto uma dor azul da cor de um Blues tristemente cantado.
Uma saudade e uma vontade de ter o que ainda não vivi.
Estou sofrendo de carência de amor verdadeiro!
(Preta)

Kilombagem - CONSCIÊNCIA NEGRA

quinta-feira, 24 de junho de 2010

Toda história tem dois lados... A questão é que vivemos em uma sociedade que esta dividida entre opressores e oprimidos.
Nossas vidas, nossas culturas são compostas de muitas histórias sobrepostas. A escritora Chimamanda Adichie conta a história de como ela encontrou sua autêntica voz cultural - e adverte-nos que se ouvimos somente uma única história sobre uma outra pessoa ou país, corremos o risco de gerar grandes mal-entendidos.

Ps: Para acionar a legenda do vídeo Click em view subtitles na parte inferior da tela.


quinta-feira, 13 de maio de 2010

Parem com estes batuques,
Bombos e caracaxás,
Parem com estes ritmos tristes e sensuais

Deixem que eu ouça
Que eu veja
Que eu sinta
O grito
A cor
E a forma
da minha libertação...

(Solano Trindade)

ENCONTREI MINHAS ORIGENS

Encontrei minhas origens
em velhos arquivos
....... livros
encontrei
em malditos objetos
troncos e grilhetas
encontrei minhas origens
no leste
no mar em imundos tumbeiros
encontrei
em doces palavras
...... cantos
em furiosos tambores
....... ritos
encontrei minhas origens
na cor de minha pele
nos lanhos de minha alma
em mim
em minha gente escura
em meus heróis altivos
encontrei
encontrei-as enfim
me encontrei

(Oliveira Silveira - Roteiro dos Tantãs)

sexta-feira, 2 de abril de 2010

“ Balançando sob a luz do sol, a melancolia há de esmorecer. Balançando sob a luz do sol, as lagrimas hão de secar. Quando as mulheres negras foram trazidas à força para o litoral americano, sendo escravizadas e mais maltratadas do que gado, elas trincaram os dentes e, decididas a sobreviver em seu destino, deram a luz ao blues , à melancolia. Desde então, todas as mulheres afro-americanas têm procurado uma cadeira de balanço e a luz do sol para espantarem sua tristeza..”

(Opal Palmer Adisa)

Sou de uma família cheia de mulheres. Mãe, duas irmãs, muitas primas (de 1º e 2º grau), tias... Mulheres pretas guerreiras, das vozes rocas e altas, de risadas longas e gostosas, de muita expressão corporal.

Essa semana me veio à memória lembranças do meu tempo de menina, foi ai que parei para pensar que existe uma coisa que provavelmente faz parte da infância de toda menina preta: O ritual do trançar o cabelo. Qualquer menina preta sabe que esse momento envolve mais do que o entrelaçar de dedos sobre nossas cabeças.

Lembro-me que o momento de trançar o cabelo é a justificativa para a reunião entre mulheres... Todas na sala. Enquanto uma trançava o cabelo as outras conversavam ao redor. Era o momento de lembranças de família... Mães, tias, vizinhas, amigas... Falando de seus tempos de bailinho, suas brincadeiras e travessuras... Esse era o momento de chorar, compartilhar problemas, ajudar uma a outra. Era o momento que elas tinham para baixarem seus escudos da guerra diária, para se permitirem emocionalmente. Enquanto isso nós as filhas ficávamos correndo desesperadas para trançar o cabelo (como doía!).

Mas não tinha jeito... O dia de trançar o cabelo era inadiável e mesmo que corrêssemos, uma hora éramos pegas e pronto...Lá estávamos nós presas entre as pernas das nossas mães. E mesmo diante das reclamações sobre o estado dos nossos cabelos e de um o outro puxão, na tentativa de desembaraçar a secos os fios crespos, esse era o momento do ritual. Um momento de amor entre mãe e filha que nenhuma palavra consegue expressar. Os dedos da mãe entrelaçando-se em nossa cabeça... Mãos carregadas de ancestralidade, de amor e cuidado. Não importava a dupla (às vezes tripla) jornada de trabalho, os sofrimentos, a tristeza de uma vida dura e miserável, as feridas provocadas por sociedade racista e machista... Sempre haveria um tempo para trançar o cabelo. Recordo que algumas vezes acordava pela manha sem saber em que momento minha mãe havia trançado meu cabelo (como ela conseguia trançar meu cabelo enquanto eu estava dormindo? ).

Uma vez me perguntaram quando eu havia aprendido a fazer tranças no cabelo. Foi então que percebi que isso acontece tão naturalmente na vida de uma menina preta, que nem sabemos quando ou como aprendemos. Simplesmente trançamos e pronto! Não é algo ensinado (tecnicamente falando), mas sim vivenciado, sentido, construído... Num ritual de carinho entre mães e filhas.

(Luciana dos Santos)

terça-feira, 26 de janeiro de 2010

O Brasil é um país com tradição escravocrata.

No Brasil a esquerda tem tradição escravocrata,

a direita tem tradição escravocrata,

brancos tem tradição escravocrata,

negros tem tradição escravocrata.

A escravidão foi realmente uma coisa que contaminou de uma maneira péssima as relações no Brasil.

Vendem-se até hoje apartamentos com quarto de empregada,

isso é típico de um país que teve escravidão.

É claramente uma tradição escravocrata.

É cultural, e cultura você não elimina com decreto.

Você não elimina com decreto o sujeito construir apartamento com quarto de empregada.

Ter uma senzala dentro do apartamento.

É cultural.

Tradição escravocrata!

Tradição escravocrata!

(MC Roberta - Frente 3 de fevereiro)

quinta-feira, 21 de janeiro de 2010


Quem policia a polícia?



O que esperar de um país que mata sua população na idade mais ativa?

E quem lucra com essas mortes?

A indústria de armas?

A indústria de fardas?

Os cemitérios, as funerárias?

E o que eu tenho com isso?

E o que você tem com isso?

“Quando a polícia brasileira foi criada, sua função primordial era controlar escravos, reprimir quilombos e ajuntamentos e açoitar escravos em locais públicos. No primeiro presídio, 95% dos presos eram escravos”.

Fonte: Documentário: Zumbi Somos Nós – Frente 3 de fevereiro

terça-feira, 5 de janeiro de 2010

Antes de mais nada, devo deixar registrado aqui o grande carinho e respeito que eu tenho por esse preto. Fico feliz e honrada em poder postar seu textos no meu blog.

Cotas raciais nas universidades públicas:
debate entre cegos e surdos?
( por Diogo Marçal Cirqueira)

Infelizmente alguns de nossos conterrâneos, centrados em seu mundo provinciano, mais uma vez chegam atrasados. Desta vez, junto às discussões que remetem a políticas de ação afirmativa, ou melhor, a uma de suas modalidades: as cotas. E por que atrasados? Simplesmente porque somente agora, após oito anos da implementação do primeiro projeto de Ação Afirmativa e várias outras experiências dessas políticas pelo Brasil, se iniciam os debates acerca dessa questão aqui. Isso se configura como um problema, pois há questões cujo desenrolar está bastante desenvolvido, no entanto, a maioria das pessoas se prende apenas ao “senso comum” e se limita a um discurso infundado de “a favor” ou “contra”. Todos/as ignoram as várias pesquisas que apresentam os resultados positivos das ações afirmativas no Brasil, e é justamente nesse contexto que temos um debate entre cegos e surdos.

O senador Demóstenes Torres, do DEM, é o melhor exemplo disso. Apesar de ser leigo no assunto – isso fica nítido em suas “argumentações-clichês” – e ter chegado atrasado à discussão, é a pessoa que encabeça o movimento no Senado contra cotas raciais nas universidades públicas.

Suas argumentações são as mesmas que a população negra vem ouvindo há séculos das elites brasileiras, compostas majoritariamente por brancos/as... E quando digo majoritariamente branca não é uma divagação sem fundamento. As últimas pesquisas de órgãos nacionais e internacionais como IBGE, Ipea, Pnud e Unesco confirmam essa realidade. Diferente do que o Senador argumenta sobre as consequências da implementação das “cotas raciais” nas universidades – “esse é um projeto com grande potencial de dividir a sociedade brasileira”, o Brasil já está dividido! Como essas estatísticas demonstram, a população negra morre mais que a população branca por falta de atendimento médico; essa mesma população possui uma taxa muito inferior à população branca no que se refere à ocupação de postos de trabalho; as condições materiais de vida da população negra são baixíssimas quando comparadas à da população branca; o acesso ao poder institucional, às políticas públicas e aos mercados legais são ínfimos entre negros/as; a atuação do racismo na educação formal, além de expulsar a negros/as dos bancos escolares, levam estes/as a terem um rendimento educacional inferior a de brancos/as; e nas universidades, em vista de todo esse processo aviltante, é ínfima a presença de negros/as.

Exemplo emblemático que desconstrói essa noção de Brasil como “paraíso racial”, como uma “democracia racial”, são as pesquisas realizadas pelo Pnud que analisaram separadamente o IDH (Índice de Desenvolvimento Humano) de brancos/as e negros/as. Esse trabalho detectou a existência de dois Brasis: um Brasil com IDH elevadíssimo, composto por brancos/as e que poderia figurar entre os países mais desenvolvidos do mundo; e outro Brasil, extremamente pobre e composto por negros/as.

Quando nosso senador argumenta que “não podemos deixar que os problemas do passado contaminem o presente e criem a divisão racial”, ele despreza que a história não se esquece e permanece sempre viva no presente. Os problemas da escravidão, do racismo e do patriarcalismo, impregnados à nossa história, não vão contaminar a sociedade brasileira, uma vez que esta já está contaminada há tempos.

Assim, as cotas para negros e negras não surgem para dividir o Brasil, mas, sim, para proporcionar a integração, ou melhor, o encontro entre os diferentes que só existe de fato no plano discursivo e ideológico. Como nos diz o poeta Cuti, “a cota é apenas uma gota num gigantesco mar de desigualdades”; é somente o primeiro e pequeno passo para “democratizar” um espaço que por anos se destina a um único grupo da sociedade brasileira.

Diogo Marçal Cirqueira
é mestrando em Geografia pela UFG, integrante do Coletivo de Estudantes Negras/os Beatriz Nascimento (Canbenas) e pesquisador do Núcleo de Estudos Africanos e Afrodescendentes (Neaad) (diogomcgyn@gmail.com)

quarta-feira, 21 de outubro de 2009

Tornando-se preta num segundo nascimento.

É estranho como podemos passar uma vida inteira sem nos enxergarmos como realmente somos. Eu por exemplo tenho 25 anos, mas apenas há 5 anos enxergo-me enquanto preta. Como pode (perguntarão alguns) alguém não perceber que nasceu com a pela escura, com o cabelo crespo, com o nariz largo, enfim... Como pode alguém não perceber que nasceu preto ou preta? E eu respondo: isso é totalmente aceitável nessa sociedade racista.
Cresci num mundo de apresentadoras infantis loiras, de barbies (magras, de pele clara, olhos azuis, cabelos longos e lisos), de “contos de fadas” sem nenhuma princesa preta. Desenhos, revista, livros, televisão...Tudo, mostrando-me o quanto era ruim nascer preto ou preta.
Ao entrar na escola percebi a dor cruel do racismo. Só que é preto ou preta vai entender o significado de um apelido na escola (negrinha fedida, cabelo Bombril, macaca, safada...). Saber que você é xingada por conta da cor da sua pele. No começo buscamos o auxilio da professora. E essa, muitas vezes não julga o racismo sofrido por uma criança algo relevante. Com isso percebemos, decepcionados, que: “Não importa em quantos pedaços seu coração tenha se partido, o mundo não parará para que você o concerte”. E dessa forma aprendemos que estamos sozinhos/as nessa luta e que precisaremos criar estratégias de defesa para sobreviver nessa sociedade que nos exclui. Aprendemos a nos tornarmos invisíveis: Sempre calados, de cabeça baixa, olhos para o chão, o corpo numa tentativa desesperadora de entrar em sim mesmo encolhe-se, encurva-se, tornar-se nosso refugio e também nosso castigo.
Raiva: da pele escura, do cabelo crespo, do nariz, da boca, do quadril largo, das características herdadas dos nossos pais. Por que nascer desse jeito? Os racistas fazem-nos acreditar que o problema esta em nós, na nossa família, nos iguais. Passamos a nos odiar, odiar que amamos e todos/as aqueles/as que são parecidos/as com a gente. Durante muito tempo odiei as pessoas erradas. Olhava para minha mãe e sentia raiva dela, por ter saído como ela. Queria ter nascido uma parda como são consideradas as minhas irmãs (afinal, antes um branco meio sujo do que do que preto ou preta: sujo, encardido, triste, perigoso, assustador, nefasto, escravo, individuo da raça negra...). Queria os olhos azuis ou verdes, queria o cabelo liso ou ondulado, queria a pele branca, rosada ou bronzeada do sol, o nariz fino e arrebitado, queria estar no padrão, se olhada e admirada e não tratada como pedaço de carne, como aquela que é boa como amante (afinal, as negras são historicamente boas de cama, boas amantes, desde da época da escravidão quando eram estupradas pelos seus senhores).
Quando me olhava no espelho não me via como me vejo hoje. Enxergava-me como gostaria de ser: de um branco meio sujo, uma morena não tão clara, morena escura talvez!? O cabelo alisado me ajudava no processo de alienação. Afinal, pelo menos os meus cabelos estariam no padrão.
Dessa forma vamos mutilando nosso corpo, nossa alma, nosso psicológico. Assimilando cada vez mais as características do opressor, a política do opressor, a cultura do opressor... Um desejo de quem sabe um dia torna-se a copia do opressor.
A dor do racismo é uma ferida que só dói quando a tocamos. Por isso é fácil entender por que muitos preferem não falar sobre o que sofre. Como é dolorido “o despertar”. Sair dessa alienação é passar pelo processo do parto, nascer novamente. E foi isso que aconteceu comigo. Nasci: Agora sim uma mulher preta! E como foi estranho me olhar no espelho pela primeira vez, sem o véu da alienação... Uma imagem estranha refletia no espelho. Senti-me como um cego a enxergar pela primeira vez: - Então eu sou assim?
Não é simples passar a aceitar-se. Escurecer sua pele dizendo: “Não sou morena, sou preta”, livra-se da química tão impregnada no seu cabelo, adotar um black, uma trança, o cabelo natural de uma mulher preta. Estar preparada para os olhares, para os comentários: “Nossa porque você não alisa esse cabelo?”, “Eu não teria essa coragem de deixar meu cabelo assim”, “Preta? Mas você é moreninha. Falar preta é feio”, “Arruma um marido branco para clarear a família...” Às vezes escuto pessoas dizerem: “Vocês negros é que vêem racismo em tudo”. Hoje ao ouvir esse tipo de comentário respondo com a maior naturalidade: Sim, Eu que vejo racismo em tudo, afinal sou eu que sofro racismo todo o dia quando saio na rua, quando entro numa loja e a vendedora gruda em mim, quando vou a um salão qualquer e escuto a cabeleireira dizer que vai “dar um jeito no meu cabelo” como se meu cabelo já não fosse ajeitado com jeito crespo dele.
Enquanto mulher preta eu jamais poderei deixar de militar e debater sobre o racismo, pois esse baterá na minha porta todas as manhas. Uma vez que saímos da caverna, que percebemos que a imagem projetada no fundo da caverna não era a realidade verdadeira, estamos condenados a dor da indignação, a revoltar-nos com as desigualdades dos nossos irmãos e irmãs, a lutarmos em nome de tantos outros/as que lutaram no passado.
Ser preto ou preta é descobrir sua historia, entender a lutas e as injustiças do passado, reafirmar sua identidade no presente, visando o futuro das novas gerações que muito ainda terão que lutar.

sábado, 26 de setembro de 2009

28 de setembro pelo direito decidir! Legalização do aborto

Cenas do documentário "Fim do Silêncio" de Thereza Jessouroun.

Fonte: http://www.youtube.com/watch?v=XbSUP0G5_Y0

Entrevista com Clarissa Menezes sobre o Dia de Luta pela descriminalização do aborto na América Latina

Reproduzimos entrevista publicada no Jornal Palavra Operária, da Liga Estratégia Revolucionária, com Clarissa Menezes, militante do Pão e Rosas e da LER-QI e mestranda em Saúde Coletiva na UFRJ. Ela nos fala sobre a Campanha Latino-Americana pelo Direito ao Aborto e como vê a luta no Brasil por esse direito.

Dia 28 de setembro é o Dia de Luta pela Legalização do Aborto na América Latina e Caribe. Qual a importância dessa data e como está colocada na realidade a questão do aborto hoje?
Nos manifestamos dentro das universidades e locais de trabalho em defesa de nosso direito à vida e de decidir sobre nossos próprios corpos cotidianamente. E isso deve ganhar maior força neste mês, quando se aproxima o dia 28 de setembro. Em toda a América Latina estima-se que morrem cerca de 5 mil mulheres todos os anos por conseqüência da clandestinidade do aborto. No Brasil cerca de 1 milhão de abortos são realizados por ano, são feitas 250.000 internações para o tratamento das complicações de aborto no sistema público de saúde, sendo que em estados como BA e PE a primeira causa de mortalidade materna é em conseqüência de abortos clandestinos. Qualquer profissional da saúde sabe que essas mortes são perfeitamente evitáveis, concordem ou não com a legalização do aborto. Mas porque então as mulheres seguem morrendo ensangüentadas, sofrendo conseqüências graves como infecções que as levam a ter que retirar o útero, passando por humilhações de todo o tipo nos hospitais, tendo seu útero perfurado, sendo deixadas 2, 3 dias sagrando nas macas como “punição”, entre tantas outras atrocidades?

E frente a tudo isso, os setores contrários ao direito ao aborto seguem na ofensiva...
Sim, é verdade. Sobre nossos corpos se impõe a Igreja aliada aos distintos governos, além da Frente Nacional Parlamentar Contra o Direito ao Aborto. Além disso, está sendo organizado para o ano que vem um “Encontro internacional pela vida” sediado no Brasil, que é tido como um exemplo no combate à legalização do aborto, por exemplo com o caso de quase 10 mil mulheres perseguidas pela justiça burguesa no Mato Grosso do Sul por terem fichas médicas numa clínica clandestina, e algumas cumprindo pena trabalhando em creches.

No meio da crise capitalista enquanto o governo Lula salva os capitalistas com bilhões de reais, mulheres e seus filhos morrem nas filas dos hospitais, diante de epidemias como a dengue, e recentemente a gripe A, e morrem todos os dias por conseqüências de abortos clandestinos. Enquanto isso, no mês passado foi dado dinheiro do governo para a realização de uma marcha em Brasília contra o direito ao aborto. Ao mesmo tempo, o posicionamento de figuras políticas contrárias ao direito ao aborto tem gerado intensas discussões, como se demonstrou no PSOL, quando em seu recente Congresso muitos militantes se rebelaram contra Heloísa Helena que faz campanha ativa contra esse direito, indo contra a própria resolução do partido sobre essa questão.

No caso do PT, estamos vendo nesta semana que Luiz Bassuma (BA) e Henrique Afonso (AC), ambos deputados federais, estão sendo punidos pelo partido por se colocar contra a descriminalização do aborto. Esses fatos novamente colocam com mais destaque o debate sobre o tema. Outro aspecto é que os partidos políticos já se preparam para as eleições de 2010 e há duas figuras femininas em destaque, que são Dilma Roussef e agora Marina Silva. Toda a aparência de progressista que Marina Silva tenta destacar em sua saída do PT esconde um fato que não é qualquer: assim como Heloísa Helena, ela se coloca contra um direito democrático elementar. Dilma se posiciona timidamente a favor da legalização, mas teríamos que perguntar como pôde cumprir um papel tão central no governo de Lula durante anos ao mesmo tempo em que sob esse governo não se avançou de fato na legislação que segue punindo brutalmente as mulheres que abortam. A verdade é que temos que aproveitar esse cenário em que muito se discutirá sobre o papel das mulheres e os discursos de emancipação. Temos que dizer em alto e bom som que enquanto meia dúzia de mulheres ascende ao poder, nós, mulheres trabalhadoras e pobres, seguimos morrendo nos corredores dos hospitais. E isso não pode significar emancipação.

Fale um pouco sobre a Campanha Latino Americana pelo Direito ao Aborto e as ações para o dia 28 de setembro.
A campanha está presente na Argentina, Bolívia, Brasil e Chile. Falando de América Latina, estamos num contexto em que a direita endurece suas ações, tendo em Honduras a sua principal expressão. Ao mesmo tempo, a resistência de massas se coloca e as mulheres estão cumprindo um papel destacado. Não tratamos do tema do aborto desligado dessas questões da realidade. Combater a ofensiva dos setores mais reacionários é parte fundamental da nossa luta. Nesse sentido, acho muito importante que somemos forças em frentes únicas amplas colocando-nos contra o golpe em Honduras e também na luta pelo direito ao aborto.

No Brasil, desde a Campanha Latino Americana, organizaremos atividades nas universidades e locais de trabalho, e também estaremos presentes nas ações pela legalização do aborto convocadas por outros movimentos e organizações, ao mesmo tempo em que mantemos públicas nossas diferenças políticas como é o caso da Frente Pela Legalização do Aborto, que tem um Manifesto que não assinamos por trazer em seu conteúdo uma defesa da democracia dos ricos que não compartilhamos. Mas penso que é fundamental somar forças em ações concretas. No CACH, Centro acadêmico de Ciências Humanas da Unicamp, onde atuamos, as/os companheiras/os votaram um chamado a organizar atividades no fim desse mês. Na reunião nacional da ANEL (Assembléia Nacional dos Estudantes Livre, impulsionada pelo PSTU) também propusemos impulsionar atividades pelo direito ao aborto, o que foi aprovado – e agora é hora de concretizar essa resolução. É preciso que as mulheres de toda a América Latina nos levantemos para dizer basta de mortes por abortos clandestinos, para que possamos decidir sobre nossos corpos e nossas vidas! Lutando por educação sexual em todos os níveis da educação pública, por contraceptivos gratuitos de qualidade e pelo direito ao aborto legal, livre, seguro e gratuito, garantido pelo Estado.

Fonte: http://nucleopaoerosas.blogspot.com/search/label/Direito%20ao%20aborto