domingo, 8 de março de 2015

DIA 08 DE MARÇO: UM DIA PARA AGRADECER

Hoje quero lembrar e agradecer a todas as mulheres que não aceitaram a condição de opressão imposta por sociedades machistas e sexistas, mulheres que não se contentaram com as migalhas que lhe ofereciam e se rebelaram... Mulheres que sozinhas e em milhares, de maneira simples ou revolucionaria, de forma sutil ou explosiva mudaram seu destinos.  Avos, mães, filhas, irmãs, profissionais, vizinhas, estranhas, companheira de luta e dor... A todas que através de um ato de coragem ser tornaram exemplos de luta e resistência para que tantas outras pudessem se libertar.

Obrigada Harruet Tubman, Dandara ,Aqualtume, Luiza Mahim e tantas outras irmãs sem rosto e sem nome na historia, que não se conformaram com o cativeiro e lutaram pela sua liberdade e pela liberdade de tantos outros irmãos e irmãs.

Obrigada Rosa Louise McCauley , querida Rosa Park,  pelo simples, mas corajoso ato ter se recusado a ceder seu lugar naquele ônibus, possibilitando que a partir daquele momento tantos outr@s pudessem lutar por direitos iguais. 

Obrigada Nadezhda Krupskaya por sua luta revolucionaria na União Soviética, Petra Herrera e todas as Soldaderas que combateram na Revolução Mexicana,  Nwanyeruwa por ter comandado as 25 mil mulheres nigerianas contra as autoridades britânicas no oeste da África,  Capitã Lakshmi que lutou como oficial no exercito Nacional Indiano e Rani Laksmibai que participou da Rebelião Indiana, Celia Sanchez pela luta não reconhecida durante a Revolução Cubana, Simone Adolphine Weil por ter lutado na Guerra Civil Espanhola e na Resistencia Francesa por nos ensinarem que lugar de mulher é na luta armada ou em qualquer outro lugar que ela julgar ser necessário.

Obrigada Sophie Scoll pela criação do grupo de resistência não violenta antinazista “Rosa Branca” Kathleen Neal Cleaver e Angela Davis que contabilizaram dois terços de mulheres no quatro dos Panteras Negras, Adelina escravizada Maranhense que participou ativamente na campanha abolicionista...

Obrigada Lélia Gonzalez, Sueli Carneiro, Carolina Maria de Jesus, Conceição Evaristo, Clementina de Jesus, Jovelina Perola Negra, Tia Ciata, Nina Simone, Mãe Menininha do Gantois, Mãe Beata de Iyemonjá e a tantas outras que utilizou a cultura artística ou religiosa como mecanismo de luta e resistência. 

Obrigada a minha mãe (rosa de nome) e guerreira de historia e a todas as outras mães que lutam diariamente contra todas as formas de opressão... Obrigada as minhas irmãs de sangue, de luta e de vida que compartilham comigo as dificuldades de ser mulher em uma sociedade patriarcal. Obrigada a todas as mulheres que passaram, estão ou passarão pela minha vida, por me ensinar com suas historias como seguir em frente, como resistir, como lutar por um mundo onde podemos nos sentir seguras, iguais, com as mesmas oportunidades de conquistas e direitos. 

Hoje quero agradecer pelos exemplos de mulheres que fizeram e fazem historia, seguindo com suas lutas diárias, cheia de garra e determinação, resistindo a tudo... Resistindo Sempre!

(Preta_dss - 08/03/2015)



domingo, 1 de fevereiro de 2015

MÃE NEGRA, CRIANÇA NEGRA: IDENTIDADE E TRANSFORMAÇÃO

Desde os relacionamentos que geram uma gravidez até o momento do parto, muitas questões sociais se entrelaçam, na maioria das vezes revelando as mais diversas faces do racismo brasileiro.

(Por Jarid Arraes)


Ana Beatriz da Silva, conhecida como Bia Onça, geógrafa, é mãe do pequeno Malcolm Akins, de quase três anos. O nome do filho, inspirado em um grande ícone da luta negra nos Estados Unidos – Malcolm X – também traz no registro o significado “valente, corajoso”, marcado pelo Akins de origem egípcia. A escolha do nome revela a maternidade politizada e consciente do seu papel transformador, que do próprio nome escolhido para o filho já começa a enfrentar os indícios de uma sociedade racista e eurocêntrica: Onça levou o filho bebê para ser vacinado no posto de saúde do seu bairro, entregou o cartão de vacinação da criança e esperou sua vez de ser chamada. No entanto, foi surpreendida com o deboche da enfermeira, que criticou o nome do menino na frente de todos. Apesar do ato não ter passado em branco, Onça deixa evidente que entendeu o episódio como um caso de racismo – e por isso não se calou.

O racismo, aliás, é um dos temas centrais para mães negras, sejam elas militantes de grupos ativistas ou não. Desde os relacionamentos que geram uma gravidez até o momento do parto, muitas questões sociais se entrelaçam, na maioria das vezes revelando as mais diversas faces do racismo brasileiro. Para as mulheres negras que entram na maternidade cheias de temores, há, de fato, muito com o que se preocupar. A segurança e o bem estar dos seus filhos estão sempre em jogo, não somente por todas as apreensões comuns aos pais, mas também porque a marca do racismo cria obstáculos políticos, sociais e culturais concretos, que podem prejudicar a vida das crianças de forma aguda. A começar pela sua identidade.

A criança que sabe de sua negritude


No Brasil, a cultura da negação racial é dominante e ainda muito presente na mentalidade da população. Por causa da herança racista que se perpetua desde o período da escravidão, os brasileiros ainda compreendem a miscigenação racial como uma forma de negar as diferenças raciais entre as pessoas; por isso, é comum que grupos inteiros se identifiquem como miscigenados, mestiços e misturados, mas não como pessoas negras. Na verdade, a identidade negra parece ser ignorada ao máximo por muitas pessoas, que recorrem a termos como “moreno”, “mulato” ou “cor de jambo”, entre muitos outros que evidenciam a dificuldade em se reconhecer negro.
Desse modo, pode ser complicado construir uma identidade racial segura quando não se possui bases e educação para compreender e discutir as questões raciais. Assim como qualquer outro valor que se deseja ensinar às crianças, o reconhecimento da própria identidade racial e o que isso significa é um dos papéis dos pais e mães que já passaram por processos similares. As crianças negras que crescem em famílias conscientes desses aspectos possuem mais chances de desenvolver uma percepção positiva de si, além de crescerem mais preparadas e fortalecidas contra o racismo.

Daniela da Silva, jornalista e servidora pública, tem uma filha de 8 anos, fruto de um relacionamento com um homem branco. Maria Antônia, sua filha, tem a pele mais clara que a da mãe e o cabelo liso; seria mais uma “morena”, caso não estivesse se desenvolvendo em um lar consciente e bem informado. “A construção da identidade negra foi feita pela minha mãe desde que eu me lembre. Por eu ser negra de pele clara, ela investiu muito para que não houvesse dúvidas em minha cabeça. Faço o mesmo com minha filha, pois além da pele clara, o cabelo é liso e o pai é branco”, explica Silva. “Conversamos, ouvimos música, falo de minha religião (sou de candomblé), não deixo assistir TV aberta, monitoro o que lê e escuta, sempre identificando os aspectos raciais e comentando coisas cotidianas como ‘olha, filha, nesse restaurante, que é caro, quase não tem gente negra’ ou no prédio que moramos, ou no avião. Com prazer, escuto ela responder, às vezes: ‘mas nós estamos aqui, né, mamãe?’”
Maria Antônia já se identifica como negra e convive com referências que fortalecem a sua identidade racial: “Vemos muitos filmes estrangeiros, principalmente americanos. Ela também vê séries e comento com ela ‘olha, essa menina parece você’. Nos EUA, mesmo as latinas se identificam como negras, então alimento essa audiência mais do que a de produções brasileiras, sem nenhuma culpa. Outra coisa que estimulo – a partir da iniciativa dela – é ser fã da Beyoncé, da Rihanna, negras claras como nós”.
Daniela Silva conta que a filha já desejou ter o cabelo crespo igual ao seu, quando era menor, mas depois que passou a conhecer mulheres negras de cabelos lisos, aceitou suas características e agora convive com a admiração que nutre pelos cabelos cacheados. “Outra coisa que ela ama é tomar sol, banho de mar, de piscina, para ficar comparando nosso tom de pele. ‘Estou quase igual a você, Mamãe’.  Como temos uma relação amorosa e eu estou num processo contínuo de empoderamento, acho completamente natural e desejável que ela queira se parecer cada vez mais comigo”, declara.
Para mães como Mara Evaristo, a preocupação de fortalecer seus filhos contra o racismo é parte indissociável da identidade que as crianças constroem. Evaristo é Coordenadora do Núcleo de Relações Étnico-Raciais da Secretaria Municipal de Educação de Belo Horizonte e Conselheira Municipal de promoção da Igualdade Racial e, por isso, já é a própria referência de engajamento político que os filhos podem olhar para se espelhar. No entanto, conta que apesar de ter inserido os filhos na agenda negra da cidade, possibilitando que entrassem em contato com manifestações culturais negras e políticas afirmativas, o conhecimento das crianças a respeito do racismo veio à medida que foram percebendo que recebiam tratamento diferente a depender da situação. “Essa fase sempre é dolorosa em qualquer idade”, lamenta Evaristo.
Junto com a identificação do racismo, busquei possibilitar que aprendessem sobre a sua origem, sobre a humanidade e a história dos negros no Brasil. Hoje, filho e filha sabem que descendem de um povo guerreiro, de grande conhecimento e que lutou e luta muito para não se submeter a opressão”, conta. “Sabem também que a luta permanece porque compreendem o que o racismo é capaz de fazer com um continente como a África. E digo mais, sabem o que eu não sabia na idade deles, que o racismo é um monstro camaleão, com a capacidade de nos fazer assimilar sua genética rapidamente”.
A valorização dos símbolos de origem africana e a riqueza de material educativo que fale da África, por exemplo, são presentes na educação que essas mães oferecem aos seus filhos. Bia Onça fala com orgulho da atividades que desenvolve com Malcolm Akins e se alegra ao afirmar que o seu filho já demonstra se compreender como negro. “O nome dele já diz sua origem e da onde ele vem. E a todo o momento tentamos afirmar e reafirmar sua negritude, como estar sempre entre seus familiares e na creche, onde pontuamos sempre a sua origem e o que pensamos sobre o papel da criança negra neste espaço”, explica. “Tento a todo momento apresentar coisas da nossa corporeidade negra a ele e sinto que ele gosta e se identifica, como músicas, danças, livros e bonecas negras.  Penso que devo, como responsável, apresentar todas as identidades a ele, todas possíveis, mas reforço a ele sua identidade negra”.
E por falar em boneca, felizmente o esforço pela concretização de uma educação plural e diversificada também levanta a conscientização sobre questões de gênero e o combate ao machismo. Bia Onça relata: “Ele chegou em casa apontando o que era coisa de menina, conversamos com ele e pontuamos na escola. E toda vez que ele vem com essa, ‘mamãe ou papai, é de menina?’, nós pontuamos que não é de menina e que é de menina e de menino. É uma coisa que deve ser trabalhada diariamente sempre. Para se ter uma ideia, ele vê objetos rosas e já associa a meninas. A escola tem infelizmente esse desserviço sobre a questão de gênero com os nossos pequenos e nós temos que pontuar”.
Algo compartilhado também por  Evaristo: “Em relação às questões de gênero, os desafios também são grandes. Sempre houve a necessidade de destacar que a agenda feminista, até bem pouco tempo atrás, pouco atendia ou respondia às demandas das mulheres negras. Vejo o movimento crescente e atual do feminismo negro com urgente e extremamente saudável, porque tem nos representado, tem nos dado voz e isso terá um impacto forte e positivo nas infâncias negras”.
Violência obstétrica e o machismo racista


Parte da vivência da criança negra consciente é de observações na própria família e de tomar conhecimento da experiência de vida dos parentes ao seu redor. O racismo e o machismo, portanto, estão presentes nas histórias contadas para a criança, que infelizmente percebe que essas histórias de violência começam até mesmo antes do seu nascimento.

Bia Onça conta que sua experiência com as escolhas pessoais e profissionais na maternidade foram tardias: “Fiquei grávida com 37 anos de idade, depois de 5 anos de relacionamento e de comum acordo com meu companheiro; logo, foi uma gravidez feliz, sem problemas de saúde, familiares e amigos por perto dando maior força, bebê saudável. Tivemos alguns problemas já nas últimas semanas com o parto, que seria normal, já que tive um pré-natal perfeito, (fiz dois pré-natais) no hospital público (de referência no Rio de Janeiro, para meu caso que tenho miomas) e no hospital particular, que foi mediano para ruim”.
No final da gravidez, o hospital público que a atendeu entrou em obra. “Minha obstetra, que sabia que eu tinha plano de saúde, me colocou de forma sincera as dificuldades que seria ter o filho naquelas condições naquele hospital e a mesma me indicou possibilidades de hospitais particulares com 34 semanas. E aí conseguimos um obstetra que fizesse meu parto, porém, em condições de datas fechadas, porque era carnaval e tinha o meu receio dos meus miomas e, no desespero, fechamos e tivemos nosso filho de cesárea”.
Sobre racismo, Bia Onça relata que passou por diversas situações durante sua gravidez. “Como sou magra e não apresentei muita barriga, dificilmente alguém me dava lugar no metrô, no ônibus, a ponto de um dia uma senhora dizer que eu aguentaria ficar de pé no metrô. Perguntei o porquê e ela disse que eu era negra e que gente da minha raça aguenta. Eu discuti e criei um constrangimento no metrô, penso que talvez ela não faça mais isso. E mais racismo; quando fui fazer uma das últimas ultrassonografias, num centro médico famoso e caro, aconteceu que eu e meu companheiro sentimos o constrangimento no atendimento e quando o médico nos chamou e começou a ultra, ele começou a questionar o preço e que talvez nós não tivéssemos dinheiro para pagar uma ultrassonografia (super moderna) que o centro médico oferecia”.
Ainda pior do que essa situação, foi o que Bia Onça passou na hora de ter seu filho. “Quando fui me internar no hospital particular, o atendimento do hospital, eu com meu companheiro, na hora de preencher a ficha a atendente pegou minha identidade e foi anotando, não perguntou nada que estava na ficha. Eu, num estado de apreensão para ter a criança, nem me liguei, mas meu companheiro ligado percebeu que ela na parte de colocar minha profissão colocou ‘do lar’. Daí, meu esposo questionou e pediu que a mesma fizesse outra ficha e questionamos se ela sempre faz isto com as mulheres negras que entravam no hospital.  E na hora do parto, que foi tranquilo, até que a enfermeira no final da cesárea olha para minha cara (eu deitada aberta) e diz a seguinte frase: ‘É, Ana Beatriz, ano que vem você vai estar aqui de novo?’. Eu, só com meu olhar fulminante, respondi que não e outro enfermeiro viu a situação e disse: ‘Ela está com cara de que não volta no ano que vem, não, e de que não está gostando da sua pergunta’. Nós, mulheres negras, infelizmente vivemos essa situação”.
A marca da violência obstétrica e o tratamento racista dado às mulheres negras nos hospitais, sejam eles públicos ou particulares, é conhecimento comum das mães negras, que não poupam exemplos e reivindicações. A recente campanha do Ministério da Saúde, SUS Sem Racismo, trouxe algumas estatísticas oficiais que embasam os argumentos das mulheres negras:  elas são atendidas, em média, por menos tempo do que as mulheres brancas e são 60% das vítimas de mortalidade materna no Brasil. Na pesquisa, ao contrário das 46,2% das mulheres brancas que foram acompanhadas durante o parto, apenas 27% das mulheres negras receberam o mesmo acompanhamento e, além disso, somente 62,5% das mulheres negras foram orientadas sobre a importância do aleitamento materno, contra 77% das mulheres brancas que receberam a mesma orientação.
A mulher negra mais bem informada que engravida teme não ser bem atendida. Quando engravidei, já tinha conhecimento das estatísticas e dados sobre atendimento diferenciado, sobre a negação de anestesia, sobre a maior taxa de mortalidade. Tomei a decisão de – mesmo tendo o dinheiro do parto – ter minha filha no SUS por que eu já queria que fosse um parto normal e por que eu tenho esse direito, pago impostos, vivo num país que se diz democrático e se fosse preciso exigiria isso também”, conta Daniela da Silva.
Eu tive a sorte pelo médico que acompanhou minha gestação e realizou o parto poder ser definido com dois adjetivos: profissional e ético” – afirma Mara Evaristo – “mas essa não é a regra e digo isso por ter ouvido narrativas de amigas, conhecidas negras e brancas que viveram a gravidez na mesma época que eu ou me contaram de suas vivências. Saber quem será o médico no dia do parto, como será a cirurgia, de que forma o corpo se transformará, ser apresentada à equipe de enfermeiros e anestesistas, conhecer a dinâmica do hospital, ter apoio nos momento de contração, fazer o enxoval, ter boa alimentação e ouvir do companheiro, dos amigos e da família que será um bebê lindo porque terá os seus olhos, a sua cor, o seu cabelo. Esse deveria ser o processo natural de qualquer gravidez, mas não é”.
Para além das estatísticas oficiais, dados do governo e argumentos das militantes, a experiência da mulher negra com sua gestação e seu parto pode fazer grande diferença na sua relação com seus filhos e com a maternidade. Por outro lado, a resiliência ainda é um dos atributos presentes nessa equação social. A ideia do sexo frágil, de fato, nunca foi um estereótipo que coube às mulheres negras e, em muitos casos, não se trata de uma escolha pela força, mas da única alternativa para garantir uma vida digna para si e para seus filhos.
Maternidade negra: uma constante transformação do mundo
A criança que conhece a história dos seus pais e reconhece a luta contra o racismo e por uma vida melhor também pode demonstrar, além da compreensão aguçada a respeito das questões sociais, um senso de proteção e de se sentir pertencido a um núcleo familiar repleto de cooperação e amor. Por isso, a construção da identidade e a referência da negritude fazem tanta diferença na forma como essa criança se relaciona com o mundo. Silva compartilha um exemplo: “Minha filha não sofre discriminação diretamente porque para a maioria dos brasileiros ela não é negra, é o que chamam de morena. Mas, um dia fui buscá-la na escola e uma menina falou meio descrente, pra mim: “Você é a mãe dela?” Minha filha veio na mesma hora e me abraçou: “É a minha mãe, sim! Por quê?” A menininha não falou mais nada. Foi engraçado. Fiquei orgulhosa da leoazinha. Mas, já contei para ela episódios em que eu fui discriminada, especialmente quando ela era bebê porque ela era muito clarinha… As pessoas pensavam que eu era a babá em algumas situações e até prestei queixa uma vez de uma mulher que me atendeu mal no serviço médico por achar que eu era babá”.
Mães como Daniela Silva fazem um papel de transformação social que, infelizmente, falta como prática na sociedade. “Maria participa de reuniões do coletivo de mulheres negras que integro, o Pretas Candangas, onde tratamos do assunto. Ela fica jogando, ouvindo música, mas também ouve [os debates] quando quer. Já foi comigo ao Festival Latinidades, reuniões da AMNB, da Cojira, já viu entrevistas minhas falando de preconceito e discriminação. É um universo que ainda não a magoou frontalmente, mas ela sabe que é doloroso para a mãe”. Entre ondas conservadoras que pregam a preservação da família, há poucos exemplos como esse. Sua prática e seu papel de mãe não se encaixam em discursos hipócritas, porque produzem mudança social significativa e preparam pessoas como sua filha, Maria Antônia, que se tornam seres humanos capazes de construir valores melhores, de respeito e habilidade para viver em comunidade com toda a diversidade humana. “Recentemente, contei que a Mirian França foi presa por ser pobre e negra, mesmo sem que se apurasse corretamente a participação dela no episódio do Ceará”, conta Silva. “E ela [Maria Antônia] disse: “quem prendeu ela é que devia ser preso!’”.
E o exemplo é a melhor forma de ensinar. Mara Evaristo enfrentou o racismo que os filhos sofreram há cerca de 13 anos em um episódio de discriminação que ocorreu na escola e deixou frutos belíssimos, apesar da experiência dolorosa. “Buscamos o diálogo porque se tratavam de crianças; e junto com professoras e a direção desenvolvemos um projeto, que no primeiro ano durou dois meses. No segundo ano envolveu todo as turmas e no terceiro ano entrou para o PPP da instituição, ou seja, integrou todo o currículo alterando material pedagógico, dinâmicas cotidianas, relação com funcionários, os projetos realizados por todos os professores. Foi um período de dor, que nos tornou mais fortes e cientes dos desafios que uma família negra enfrentará na criação dos filhos”.
Os impactos de sua atitude permanecem vivos na subjetividade dos seus filhos, nas outras crianças que foram atingidas pelas intervenções e também em si mesma, como um incrível exemplo do potencial abrangente da maternidade negra. “Essa primeira experiência vivida em família, me fez estudar e desenvolver uma oficina de formação para os professores nomeada “Sonhos em Papel – Identidades em Construção”. Nessa oficina, eu apresentava pesquisas que mostravam como a criança pequena poderia construir uma identidade positiva e de que forma a educação poderia contribuir para isso. Esse momento definiu meu campo de atuação profissional até hoje”.
A receita desse potencial, felizmente, não é restrita. Silva aconselha outras mães que desejem auxiliar suas crianças no fortalecimento de suas identidades negras, sempre levando em consideração a responsabilidade que devem possuir para com as outras pessoas. “O principal na relação de mãe e filha é construir uma relação de sinceridade com as dificuldades, sejam financeiras, raciais, de gênero ou coisas do cotidiano. Mostrar que a vida é uma luta e que a da gente está muito boa comparando com a de outras pessoas. Falo a ela que a maioria das meninas negras não têm acesso ao que ela tem e que isso só acontece por que a mãe dela teve oportunidade, aproveitou e que a ama e por isso trabalha muito, para que ela tenha oportunidades também”.
Em relação à religião, respeito que ela possa fazer outra escolha e não a obrigo a participar de tudo do candomblé. Ela não gosta de alguns rituais e adora outros, então levo nos que ela gosta. Quando vai, pergunta muito! Todos têm paciência no meu terreiro, no do meu avô – onde também vamos. E um dia feliz em minha vida foi quando ela pediu para participar do xirê pela primeira vez e vestir a roupa. Mas, ela chama de ‘sua religião, mamãe’ e sempre pede coisas a Deus, mas se precisar, acende velas e me pergunta a quem pedir e aí eu digo direitinho. Quando fica doente, pede que uma guia minha que faz descarrego cuide dela também.  Fé, amor, autoestima e orgulho da ancestralidade…  Prioridades aqui em casa”, conclui.
Para Evaristo, também é fundamental lembrar de todas as outras mulheres negras e mães que chegaram a dar suas vidas para que um texto como esse pudesse hoje existir. “Responder a essas perguntas me fez reviver dores e alegrias. Ser mãe é o melhor e maior presente que a vida me deu. Lembro do olhar das crianças, desde o primeiro dia na maternidade. Os olhos redondinhos do Luiz. Os olhos puxadinhos da Tainá. Os choros manhosos, os cheiros, as primeiras risadas. Os primeiros passos. O primeiro dia na escola. O lustra-móveis no chão para ajudar na limpeza da casa – foi difícil remover, mas rendeu boas risadas. As pipocas com filme, as pipas no ar, os sustos na avó. Compartilhar pequenos segredos. Correr, cantar, gritar, pular, dançar, brincar com os amigos. Eu sou grata a vida porque pude viver tudo isso”.
A verdade, no entanto, é que todas essas experiências não são suficientes para tranquilizar o coração. “O jornal, a mídia mostram cotidianamente que o Brasil é um país racista, sexista e intolerante, onde matar negros, mulheres e homossexuais continua sendo rotina. Sou solidária com todas as mães que perderam seus filhos e filhas tragicamente. Sou solidária aos filhos que perderam suas mães drasticamente. Eu sinto dor pelos filhos da Cláudia Silva Ferreira. Eu sinto dor pelos filhos cujas mães morreram nesse Brasil lutando por dignidade. Ainda assim, precisamos continuar. 2015 é Década dos Afrodescendentes e o ano da Marcha das Mulheres Negras. Que as nossas lutas cotidianas nos fortaleçam, que nos aproximem e que nos ombreiem de tal forma que vida plena e dignidade sejam pilares para nossos filhos”, finaliza Evaristo.


sábado, 25 de outubro de 2014

Debout les femmes, Une vidéo que toutes les femmes du monde devraient voir !




CONFISSÕES DE UMA MULHER EM CRISE (Texto de Pamela Sobrinho para as Blogueiras Feministas)

Confissões de uma mulher em criseAcredito que muitas pessoas passem por crises existenciais em alguns momentos da vida. No geral, minha sensação é de que entro em crises quase que diariamente por ser mulher. Como não surtar quando somos cobradas diariamente para sermos Super-Mulheres? Não no bom sentido da palavra. Porque somos cobradas para sermos seres imortais, fortes e que nunca fraquejam, modeladas por uma sociedade e uma cultura de muitos anos. Quem inventou essa ideia de que a mulher veio depois do homem? Quem disse que por trás de todo homem tem uma mulher? Pergunto-me diariamente como ideias tão antigas perduram até hoje.

Lendo revistas femininas, havia um artigo com o seguinte titulo: “47 dicas para você ser uma mulher poderosa”. Sobre o que tratará esse artigo? Será sobre emprego? Será sobre como nós mulheres somos poderosas quando conciliamos casa, família, emprego e lazer? Não, não era nada disso, era mais um artigo machista e patriarcal que tenta ditar como nós mulheres devemos ser. Para ser ter uma ideia, a dica 4 é: “Encontre um cara que você queira fazer feliz todos os dias, para o resto da sua vida, e case-se com ele”. E se você não quiser se casar? Você vai deixar de ser poderosa? A dica 15 diz: “Você nunca perderá nada por ser discreta. E, se perder, ninguém vai ficar sabendo mesmo”. Isso é sério? Essas dicas me levarão onde?

Infelizmente, muitas mulheres seguem a risca essas “dicas”. Não que elas estejam erradas, mas nós, mulheres, crescemos acreditando que não somos poderosas se não estivermos nos moldes que a sociedade prega. Se você é branca, cis, loira ou morena, com cabelo liso e magra, talvez sofra menos as pressões sociais, mas essa não é a realidade de todas as mulheres. Se você for negra, por exemplo, ou é vista como uma Globeleza ou é ignorada pela sociedade. Se você é gorda, sofre outros tipos de exclusão. Se é uma trans*, o desrespeito é tão absurdo que nem como mulher você é considerada.

Alicia Keys, na música “Superwoman”, diz a seguinte frase: “Eu me levanto e continuo procurando, pelo melhor pedaço de mim, de cabeça baixa por esse peso, escrava da humanidade, eu levo isso em meus ombros, tenho que encontrar a minha força interior”.

Sim, somos escravas da sociedade. Sendo escravas, somos levadas diariamente a abandonar nossas ideias, deixar nossas vontades de lado para seguirmos um molde ao qual nos encaixamos e sofremos por causa disso. Quantas de nós não surtaram um dia porque não estavam num padrão aceitável? Queremos ser aceitas, mas será que vale morrer por isso?

Até quando seremos vitimas de um padrão que não existe? Até quando existirão padrões para determinar quem é a mulher real e quem não é?

Na mesma música, Alicia Keys também diz: “Por todas as mães que lutam, por dias melhores que virão, por todas as mulheres sentadas aqui agora, que tem que voltar para casa antes do sol se por, para todas as minhas irmãs, cantando juntas, Dizendo: Sim eu vou, Sim eu posso”. Também respondo sim. Nós vamos levantar todos os dias e lutar por um mundo onde não sejamos mais escravas, mas sim donas de nosso próprio destino.




Autora
Pamela Sobrinho é economista no Sistema S, editora na revista Betim Cultural, blogueira, mulher, feminista, sem denominações religiosas, mas amante do respeito e da igualdade. Escreve no blog: O que há por trás da Economia. Twitter: @pamsobrinho.


sábado, 21 de junho de 2014

Documentário Sobre Estética e Cabelos Afros: Espelho, Espelho Meu!

Através de depoimentos, o documentário "Espelho, espelho meu", produzido por Elton Martins, aborda apresentações afro-estéticas no período juvenil. Mães, crianças e adolescentes: todos falam um pouco de suas experiencia com os seus cabelos e sobre suas escolhas pessoais. Além disso, o vídeo conta com a participação do historiador Antonio Cosme que norteia o tema ao destrinchar o processo de construção de identidade. 
O historiador fala, também, que a realidade é quase o oposto do que deveria ser. Ele explica as expressões identitárias atuais e as define como consequência da alteridade, da relação étnica-racial brasileira. Depoimentos de adultos (homens e mulheres), adolescentes e crianças são usados no documentário como confirmações do que fala o historiador. 
O vídeo tem logo na introdução uma mulher  negra se produzindo em frente ao espelho, com música de fundo. Em seguida, Antônio Cosme abre o documentário com o primeiro depoimento. A fotografia faz jus a temática: apresenta pessoas que usam cabelo no estilo black power ou com trança enfeitadas, por exemplo, em contraponto a cultura reinante do cabelo liso. Música também são inclusas: algumas instrumentais e outras cujas letras coincidem com o assunto do documentário.  






terça-feira, 18 de março de 2014

IMPORTANTE

Olá Meninas, Mulheres da Pele Preta!
(e Meninos, Homens da Pele Preta Também rs)
Hoje venho aqui para dizer o quanto fico feliz ao perceber que aos poucos este Blog vem conseguindo alcançar seus propósitos, tornando-se um espaço de troca de experiência, informação e divulgação. É muito bom saber que este espaço tem servido de suporte para pesquisas e divulgações de projetos... Esse é o intuito desse blog. Por isso gostaria de dizer a todos que fiquem a vontade para encaminhar seus textos, poemas, projetos, ações ou qualquer outra coisa que venha contribuir para a construção da nossa identidade preta.
Pensando nisso, fico muito feliz em divulgar o Projeto de Pesquisa da Maria Rosa e o processo de audições para compor o grupo Battys Girls. 
Dêem uma lida nas postagens a baixo para maiores informações. 

Bjs

Preta.



MULHERES PRETAS, BORA AJUDAR A MARIA ROSA NO SEU PROJETO DE PESQUISA !!!

Pessoal, peço a ajuda de todos para responderem o minha pesquisa de publico alvo para meu trabalho de conclusão de curso descrito abaixo, são apenas 10 questões de marcar, é rapidinho.

Este projeto tem como tema a fotografia no Brasil e terá como recorte temático a Vida e Experiência de Um Feminino Negro.
 Esse recorte servirá para o desenvolvimento da linguagem estética  para a produção de um editorial de fotografia experimental, que terá como referencial estético o trabalho mesclado e conceitual do fotografo mineiro Eustáquio Neves. E ainda para o conteúdo textual, será narrado o depoimento real feito por uma mulher negra de nome Lila, relatado no livro “Mulher Negra, Homem Branco” da autora Gislene Aparecida dos Santos.
Este editorial tem a intenção de traduzir os sentimentos da personagem Lila, uma mulher que busca respostas em relação a sua convivência com o racismo e o por que da existência dessa exclusão social e o motivo ao qual leva os próprios negros descriminarem sua raça.
O editorial tem como objetivo mostrar como a fotografia pode ser utilizada de  maneira artística e moderna, além de mostrar para as pessoas como o afastamento social pode prejudicar uma vida, como ideais podem ser interrompidos, o preconceito e a automutilação de uma mente perdida  no meio de tantas perguntas que se foram sem respostas.


muito obrigada!
Maria Rosa Pereira


ATENÇÃO!!!! GRUPO BATTYS GIRLS FAZ AUDIÇÕES PARA ESCOLHER DUAS NOVAS INTEGRANTES


Depois de quatro meses de formação, o Grupo de dança feminino Battys Girls está na busca por duas novas integrantes para completar dez mulheres nos palcos das noites paulistanas.
Entre os dias 18 de março e 01 de abril, meninas acima dos 18 anos podem se inscrever para a audição que acontecerá dia 06 de abril, das 13h30 às 17h, no Céu Jaçanã.
"Não estamos buscando dançarinas profissionais, com corpos esbeltos. Nosso objetivo é buscar mulheres comuns, que amem dançar, que tenham disponibilidade para ensaios e shows e estejam sempre com autoestima boa para completar a energia do grupo", diz Bruna Battys, estilista, personal stylist e empresária do grupo.
Para participar da seleção, a candidata deve se inscrever no link http://bit.ly/1iWdNQ7, mandar uma foto de corpo inteiro e uma de rosto para o e-mail battysgirls@gmail.com, indicando nome e se a inscrição já foi efetuada, e preparar uma coreografia de até 1 minuto, de qualquer estilo musical, para o dia da apresentação. É importante levar a música salva num cd!

O grupo
As Battys Girls surgiram em dezembro de 2013, num projeto desenvolvido pela estilista Bruna Battys e apresentado na 12ª Feira Preta Cultural. O grupo apresentou um pout-pourri dos grandes sucessos do momento, entre Rihanna, Ciara e Beyoncé. Em 2014, as Battys Girls já participaram do clipe do Pulse011 "Pega esse passinho", se apresentaram na escola de samba Nenê da Vila Matilde e, atualmente, fazem parte da organização das noites de sexta-feira do Hotel Cambridge, junto com o Zezão Eventos, e apresentações periódicas na balada.

Informação Enviada por: Jessica Gonçalves

domingo, 5 de janeiro de 2014

Valente – Sobre estereótipos de gênero e violência - por Maria Rita



Durante um (longo) período da minha vida eu vivi buscando atender expectativas sociais que eu acreditava serem as minhas metas de vida. Eu estudaria, trabalharia, me casaria, teria filhos, e netos e envelheceria ao lado do meu grande amor.  Isto é que eu ouvia dizer sobre “sucesso para garotas”. Nunca gostei muito desta ideia, de ter algumas partes deste “sucesso” condicionadas a outras, nunca via muita lógica para a necessidade de ter um marido para ter um filho, mas ok se o “certo” era comprar o combo, eu seguiria por este caminho.
No meio da minha estrada eu me apaixonei por inúmeras pessoas, me apaixonava todos os dias, às vezes pela mesma pessoa, às vezes por pessoas diferentes, às vezes por mais de uma ao mesmo tempo, me apaixonava por sorrisos, por ideias, por cheiros, por toques, mas acima de todas as coisas me apaixonava por quem me fazia rir.
Tive relacionamentos com gente bacana, vivi um poliamor que não deu certo, provavelmente por desconhecermos o que era o poliamor (e se vocês , pessoas que eu amei demais estiverem lendo isto saibam que foi foda e especial apesar de tudo) , passei pelas mãos de gente violenta, dessas que agridem na base da porrada mesmo, que ameaçam,  que estupram. E desde o cara bacana até na relação violenta eu acreditei veementemente de que as coisas aconteciam da maneira como tinham que acontecer e que se alguma coisa deu errado, se o relacionamento nadou em lama e terminou, se eu apanhei, se as pessoas gritaram comigo, era porque obviamente a culpa era minha, eu era uma “pessoa difícil”. Ou eu havia irritado estas pessoas, ou eu era cansativa, feia demais, gorda demais, negra demais, ou eu havia provocado e na minha mente a vida era assim com todo mundo, ou com toda mulher. Na minha ideia de amor, para que tudo desse certo bastava descobrir tudo que o objeto do meu desejo gostava ou sonhava e fazer o possível para atender estas expectativas daquele ser.  E estava tudo bem porque embora esta mensagem não tenha sido passada diretamente de dentro da minha casa, isto era o que eu lia nos livros preferidos, o que eu via na Tv, via nos filmes, nas músicas mais tocadas no rádio.
Eis que um dia eu decidi ficar pra valer com alguém, finalmente um relacionamento sem gritos, sem abusos, sem estresse, e onde eu sorria absolutamente todos os dias da minha vida. Pensei agora sim, é aqui que eu quero ficar, eu estava apaixonada e feliz, mas como a vida não tem relação nenhuma com a parte feliz dos contos de fada, tanto eu quanto ele,  fomos arrastados para armadilha dos estereótipos de gênero.

“Mulheres são delicadas”

“Mulheres são o sexo frágil”

“Um  homem deve ser o provedor do lar e da família”

“Homens são fortes”

“Homens não choram”

No meu novo lar trabalhar era inconcebível, afinal na casa existia um provedor. Estudar para que? Onde eu achava que usaria o meu diploma? O que eu fazia o dia todo em casa e ainda atrasava a janta? Este era o mote das nossas conversas, claro que não era só isso, mas esta era a base daquele relacionamento e eu achava tudo àquilo absolutamente NORMAL. Era aquilo que se esperava dele, e eu precisava atingir aquilo que se esperava de mim. Eu estava ali para servir e obedecer, e havia sido tratada desta forma a vida inteira sem me atentar para a questão, sem associar meu comportamento a tudo o que haviam me ensinado na escola sobre o que era uma família, sobre qual era o lugar do negro, o lugar da mulher. E então veio o filho, veio a cobrança para que nascesse junto com o bebê uma mãe sabe tudo e que tinha que dar conta de tudo e com excelência, afinal mulheres nasceram para isso. E nesta vibe criamos um abismo entre nós, nos ferimos, nos cansamos, mas tecnicamente atingimos todos os objetivos do jogo hétero-cis-normativo. Por fim a relação acabou com uma única frase que resumia tudo o que eu tinha vivido até aquele ponto na minha vida - “Aqui dentro da minha casa você não tem direito a nada”. Com a minha falta de direitos externada ficou claro pra mim que aquilo tudo que havia sido construído não eram nem de longe as minhas metas de vida.

Quanto daquilo que vivemos é fruto daquilo que a sociedade nos impõe como o certo? Penso no que me impediu por 27 anos de me rebelar contra o sistema e descobri as coisas que possivelmente eram as minhas aspirações reais. Quantas coisas os meus parceiros fizeram porque “é assim que é”, quanto foi feito “em nome da honra”, para marcar território, para impor respeito.
E o tempo passou eu tive outras tantas relações e percebi que ainda incorria nos mesmos clichês, eu os enxergava agora, mas como mudar?  E se eu mudasse como fazer o outro mudar?
Descobri que estereótipos de gênero se aplicam a todos os tipos de relações, até mesmo nas relações lésbicas, da qual posso falar com propriedade, grande parte destas relações ainda é a reprodução de uma ideia e um ideal hétero-cis-normativo que ainda inclui conceitos como a “masculina” e a “feminina” e pauta sua convivência naquilo que uma pode e a outra não, em quem regrará sua roupa, em quem lava a louça, em quem abre potes e troca pneus, quem é ativa e quem é passiva, quem pode e quem não pode chorar.
Sexismo é um termo que se refere ao conjunto de ações e ideias que privilegiam determinado gênero ou orientação sexual em detrimento de outro gênero (ou orientação sexual). Embora seja constantemente usado como sinônimo de machismo é na verdade um hiperônimo(algo que designa uma classe toda, agrupando várias sub-classes) deste, já que é possível identificar diversas posturas e ideias sexistas (muitas delas bastante disseminadas) que privilegiam um gênero em detrimento a outro. De maneira geral, o termo é usado como exclusão ou rebaixamento do gênero feminino.
Sexismo internalizado é definido como a crença involuntária por meninas e mulheres de que as mentiras, estereótipos e mitos, repetidos a exaustão em uma sociedade machista, são verdadeiras. Meninas e mulheres, meninos e homens vêem às mensagens sexistas (mentiras e estereótipos) sobre as mulheres em toda a sua vida útil. Eles ouvem que as mulheres são estúpidas, fracas, passivas, manipuladoras, sem capacidade para atividades intelectuais ou de liderança. Em contrapartida cabe ao homem ser forte, ativo, racional, líder.
Há duas conseqüências lógicas e previsíveis de uma vida inteira de tais mensagens. Primeiro, meninos / homens vão crescer a acreditando em muitas destas mensagens, e tratarão  as mulheres de acordo. Eles serão completamente doutrinados para o seu papel no sexismo, protegendo seu privilégio masculino por conspirar com a perpetuação do sexismo.
Mas há uma segunda consequência lógica – as mesmas mensagens também ficarão com as meninas e as mulheres, resultando neste sexismo  internalizado. Mulheres e meninas são ensinadas a agir conforme estas mentiras e estereótipos, duvidando de si mesmas e permitindo que este sistema sexista se perpetue.
Para que o sistema sexista seja mantido e passado para a próxima geração, todos nós devemos acreditar nas mensagens (mentiras e estereótipos) em algum grau, e conspirar com sexismo através da realização de nossos papéis atribuídos.  Para quebrar com esta base sistemática precisamos nos livrar destes estereótipos de gênero, impedir que os mesmos sejam reproduzidos e garantir assim que o suposto direito adquirido a violência e a opressão seja parcialmente anulado.
Neste final de semana a ONU lançou nos estádios de futebol a iniciativa O Valente não é Violento, que faz parte da campanha do Secretário-Geral das Nações Unidas, Ban Ki-moon, UNA-SE Pelo Fim da Violência Contra as Mulheres, é coordenada pela ONU Mulheres e conta com o apoio da Secretaria de Políticas para as Mulheres, da Presidência da República. Para marcar o lançamento da iniciativa, seis times de futebol entraram em campo, nos jogos da última rodada do Campeonato Brasileiro, levando faixas com os dizeres: O Valente Não É Violento Com As Mulheres. Entre eles, Vasco e Atlético Paranaense.
Não preciso nem dizer que a mensagem não foi assimilada por completo por quem estava nas arquibancadas de Vasco X Atlético Paranaense. Por uma hora e meia homens se digladiaram brutalmente para defender sua honra, seu ponto de vista.
O  objetivo desta iniciativa é estimular a mudança de atitudes e comportamentos machistas, enfatizando a responsabilidade que os homens devem assumir na eliminação da violência contra as mulheres e meninas, e deste modo possibilitar a juventude da América Latina e do Caribe uma vida livre da violência de gênero.
imagens da campanha "O Valente não é Violento"
Violência e opressão nada tem a ver com masculinidade, virilidade, valentia ou coragem.  Ainda é preciso avançar muito neste aspecto.
Dividir as responsabilidades num lar não te torna mais fraco, intimidar uma mulher não fará com que ela o ame, bater nos seus filhos não fará com que eles o respeitem e violência psicológica fere tanto quanto um soco ou as vezes um tiro.
Que esta campanha atinja mais homens, que nossos meninos possam crescer com outros conceitos e que mais mulheres consigam brigar contra os estereótipos que trazemos sobre nossos ombros.
Hoje é 10 de dezembro de 2013, Dia Internacional dos Direitos Humanos e último dos 16 Dias de Ativismo pelo Fim da Violência contra as Mulheres convocada pela ONU. Eu ainda estou no caminho , ainda vou amar muito, me apaixonar inúmeras outras vezes. Abraçada por outras mulheres em luta descobri que lugar de mulher é onde ela quiser. Aprendi recentemente que é preciso amar sem posse, aprendi (não tão recentemente) que eu sei e que eu posso trocar pneu, abrir pote, dormir com quem e quantos eu desejar, beber até cair, reformar uma casa e colocar azulejo, criar meu filho muito bem, estar sozinha, aprendi a responder na mesma altura, aprendi a me defender, aprendi que violência também se disfarça de outros nomes e precisa ser denunciada e combatida sempre e que nenhum estereótipo pode me deter pois já não sou mais regrada por eles.

* Este post faz parte da blogagem coletiva convocada pela ONU Mulheres para marcar o  Dia Internacional dos Direitos Humanos e o último dos 16 Dias de Ativismo pelo Fim da Violência contra as Mulheres.