
… que amor mesmo, amor pra valer, só acontece uma vez, geralmente antes dos 30 anos.
A idéia desse Blog é trocar experiências e discutir sobre as questões raciais e de gênero e tantos os tipos de discriminações existente nessa sociedade de opressores e oprimidos.

… que amor mesmo, amor pra valer, só acontece uma vez, geralmente antes dos 30 anos.
Por conta desse blog estou tendo oportunidade de conhecer mulheres pretas de vários lugares. Uma oportunidade maravilhosa de troca de experiências. Varias visões a cerca de questões relacionadas à mulher preta.
Através dessas conversas tenho percebido que não importar a localização espacial, nós mulheres pretas temos muito em comum e vivenciamos no nosso dia a dia situações que acabam nos tornando tão parecidas. E em meio a varias conversas noto que as questões afetiva da maioria das mulheres pretas anda deixando a desejar. Em quase todas as conversas sobre relacionamentos a situação é sempre a mesma: Mulheres pretas, lindas, inteligentes e solteiras. Eu achei que isso fosse algo isolado ou que talvez eu fosse chata demais... RS. Mas pelo visto a coisa é mais complexa e anda se estendendo como epidemia
Bem... Tenho certeza que há varias opiniões a respeito desse assunto. Para começar vou postar um texto de uma amiga chamada mia (uma baiana arredada!) e quem quiser divulgar a opinião é só mandar o texto para o meu e-mail ou postar um comentário. Bjs a todos e todas.


É sabido que a instituição casamento vem se descredibilizando com o passar do tempo. Hoje, uma relação que dura vinte anos já é candidata a entrar para o Guinness. Li outro dia uma pesquisa sobre os casais mais "divorciáveis" da atualidade. A tal Paris Hilton era a mais cotada para se separar no primeiro ano de matrimônio - erraram: nem chegou a haver casamento. E fora do mundo das celebridades não é muito diferente. Os pombinhos estão no altar, e os amigos, na igreja, já estão fazendo suas apostas para a duração do enlace. Todo mundo quer casar, adora a idéia, mas poucos ainda acreditam no felizes para sempre, e não porque sejam cínicos, mas porque conhecem bem o contrato que estão assinando: com exigência de exclusividade vitalícia, ou seja, ninguém entra, ninguém sai. Difícil achar que isso possa dar certo nos dias atuais.
O casamento vai acabar? Nunca, mas vai continuar a fazer muita gente sofrer se não entrarem cláusulas novas nesse contrato e se as cabeças não se arejarem. Danielle Mitterrand diz o seguinte: "Achar que somos feitos para um único e fiel amor é hipocrisia, conformismo. É preciso admitir docemente que um ser humano é capaz de amar apaixonadamente alguém e depois, com o passar dos anos, amar de forma diferente." E termina citando sua conterrânea, Simone de Beauvoir: "Temos amores necessários e amores contingentes ao longo da vida".
Estamos falando de casamento aberto, sim, mas não desse casamento escancarado e vulgar, em que todos se expõem, se machucam e acabam ainda mais frustrados. Casamento aberto é outra coisa, e pode inclusive ser monogâmico e muito feliz. A abertura é mental, não precisa ser sexual. É entender que com possessão não se chegará muito longe. É amar o outro nas suas fragilidades e incertezas. É aceitar que uma união é para trazer alegria e cumplicidade, e não sufocamento e repressão. É ter noção de que a cada idade estamos um pouquinho transformados, com anseios e expectativas bem diferentes dos que tínhamos quando casamos, e quem nos ama de verdade vai procurar entender isso, e não lutar contra. Sendo aberto nesse sentido, o casal construirá uma relação que seja plena e feliz para eles mesmos, e não para a torcida. E o que eles sofrerem, aceitarem, negociarem ou rejeitarem terá como único intento o crescimento de ambos como seres individuais que são.
Enquanto não renovarmos nossa idéia de romantismo, continuaremos a bagunçar aquilo que foi feito apenas para dar prazer: duas pessoas vivendo juntas. Eu não conheço nada mais difícil, mas também nada mais bonito. E a beleza nunca está nas mesquinharias e infantilidades. A beleza está sempre um degrau acima.
(Martha Medeiros)


“ Balançando sob a luz do sol, a melancolia há de esmorecer. Balançando sob a luz do sol, as lagrimas hão de secar. Quando as mulheres negras foram trazidas à força para o litoral americano, sendo escravizadas e mais maltratadas do que gado, elas trincaram os dentes e, decididas a sobreviver em seu destino, deram a luz ao blues , à melancolia. Desde então, todas as mulheres afro-americanas têm procurado uma cadeira de balanço e a luz do sol para espantarem sua tristeza..”
(Opal Palmer Adisa)
Sou de uma família cheia de mulheres. Mãe, duas irmãs, muitas primas (de 1º e 2º grau), tias... Mulheres pretas guerreiras, das vozes rocas e altas, de risadas longas e gostosas, de muita expressão corporal.
Essa semana me veio à memória lembranças do meu tempo de menina, foi ai que parei para pensar que existe uma coisa que provavelmente faz parte da infância de toda menina preta: O ritual do trançar o cabelo. Qualquer menina preta sabe que esse momento envolve mais do que o entrelaçar de dedos sobre nossas cabeças.
Lembro-me que o momento de trançar o cabelo é a justificativa para a reunião entre mulheres... Todas na sala. Enquanto uma trançava o cabelo as outras conversavam ao redor. Era o momento de lembranças de família... Mães, tias, vizinhas, amigas... Falando de seus tempos de bailinho, suas brincadeiras e travessuras... Esse era o momento de chorar, compartilhar problemas, ajudar uma a outra. Era o momento que elas tinham para baixarem seus escudos da guerra diária, para se permitirem emocionalmente. Enquanto isso nós as filhas ficávamos correndo desesperadas para trançar o cabelo (como doía!).
Mas não tinha jeito... O dia de trançar o cabelo era inadiável e mesmo que corrêssemos, uma hora éramos pegas e pronto...Lá estávamos nós presas entre as pernas das nossas mães. E mesmo diante das reclamações sobre o estado dos nossos cabelos e de um o outro puxão, na tentativa de desembaraçar a secos os fios crespos, esse era o momento do ritual. Um momento de amor entre mãe e filha que nenhuma palavra consegue expressar. Os dedos da mãe entrelaçando-se em nossa cabeça... Mãos carregadas de ancestralidade, de amor e cuidado. Não importava a dupla (às vezes tripla) jornada de trabalho, os sofrimentos, a tristeza de uma vida dura e miserável, as feridas provocadas por sociedade racista e machista... Sempre haveria um tempo para trançar o cabelo. Recordo que algumas vezes acordava pela manha sem saber em que momento minha mãe havia trançado meu cabelo (como ela conseguia trançar meu cabelo enquanto eu estava dormindo? ).
Uma vez me perguntaram quando eu havia aprendido a fazer tranças no cabelo. Foi então que percebi que isso acontece tão naturalmente na vida de uma menina preta, que nem sabemos quando ou como aprendemos. Simplesmente trançamos e pronto! Não é algo ensinado (tecnicamente falando), mas sim vivenciado, sentido, construído... Num ritual de carinho entre mães e filhas.

O Brasil é um país com tradição escravocrata.
No Brasil a esquerda tem tradição escravocrata,
a direita tem tradição escravocrata,
brancos tem tradição escravocrata,
negros tem tradição escravocrata.
A escravidão foi realmente uma coisa que contaminou de uma maneira péssima as relações no Brasil.
Vendem-se até hoje apartamentos com quarto de empregada,
isso é típico de um país que teve escravidão.
É claramente uma tradição escravocrata.
É cultural, e cultura você não elimina com decreto.
Você não elimina com decreto o sujeito construir apartamento com quarto de empregada.
Ter uma senzala dentro do apartamento.
É cultural.
Tradição escravocrata!
Tradição escravocrata!
(MC Roberta - Frente 3 de fevereiro)

O que esperar de um país que mata sua população na idade mais ativa?
E quem lucra com essas mortes?
A indústria de armas?
A indústria de fardas?
Os cemitérios, as funerárias?
E o que eu tenho com isso?
E o que você tem com isso?
“Quando a polícia brasileira foi criada, sua função primordial era controlar escravos, reprimir quilombos e ajuntamentos e açoitar escravos em locais públicos. No primeiro presídio, 95% dos presos eram escravos”.
Fonte: Documentário: Zumbi Somos Nós – Frente 3 de fevereiro
É estranho como podemos passar uma vida inteira sem nos enxergarmos como realmente somos. Eu por exemplo tenho 25 anos, mas apenas há 5 anos enxergo-me enquanto preta. Como pode (perguntarão alguns) alguém não perceber que nasceu com a pela escura, com o cabelo crespo, com o nariz largo, enfim... Como pode alguém não perceber que nasceu preto ou preta? E eu respondo: isso é totalmente aceitável nessa sociedade racista.